sábado, 30 de abril de 2011

A Fauna do Último maior Fragmento de Floresta Atlântica e Cerrado do Noroeste de São Paulo



O Fragmento é localizado entre os municípios de Valentim Gentil e Meridiano (20°29’04.86”S, 50°15’16.60” O elev. 378m), é banhado pelo Rio São José dos Dourados, rio de corredeiras que corta a floresta e deságua no rio Paraná a mais de 100km do local. O fragmento possui entorno de 4.000ha dentro de inúmeras propriedades particulares. A maior porção do fragmento é localizada na chamada “fazenda dos ingleses” que atualmente é arrendada para a monocultura da cana-de-açúcar que engloba quase toda a periferia do fragmento.Uma Usina sucroalcooleira instalou-se na região do estudo e pode ser vista a alguns quilômetros do local. As queimadas, a caça e a destruição de habitat ilegalmente para a posse de mais terra produtiva, além da pouca fiscalização, parecem contribuir para a extinção de um dos últimos fragmentos consideráveis nesta região no estado. (Edição da imagem por Willian Menq).


A publicação das informações deste local é um esboço de uma pesquisa e a junção de um ensaio fotográfico de 4 anos.



No amanhecer na mata do Rio São José dos Dourados, às 5:30 am, o Jaó Crypturellus undulatus (ave terrícola, do cerrado e da amazônia) ainda canta alegre, talvez os últimos dessa região. A névoa que enconbre a floresta começa-se a discipar quando surgem primeiros raios de sol.

Apesar de ser uma bela captura de uma fotografia no raiar de uma manhã, ainda um tanto escura, a imagem por trás desta fotografia não é nada bela. Nem mesmo as Seriemas estão tendo mais seus campos pra cantarem alegres em coro ou fazerem seus ninhos...a árvore no local é um último refúgio em uma mar de canaviais em meio a antiga paisagem, já quase inexistente de cerrado por essas bandas do Estado de São Paulo. Fotografia tirada com tripé, em módulo manual. 5:30 da manhã.

Amanhece !

As Poderosas corredeiras do Rio São José dos Dourados fazem deste lugar um local ainda mais especial. Quando era criança minha mãe e meu tio me levavam para acampar na beira deste rio, dentro das profundezas da mata. Pescávamos uma infinidade de espécies de peixes entre eles os dourados Salminus brasiliensis (da família chacaracidae), que na época de reprodução subiam o rio Paraná até as corredeiras deste rio, para desovarem em lagoas mais acima do rio são josé dos dourados, da qual leva o seu nome. Hoje em dia é muito difícil pescar dourados, pois a pesca predatória descontralada, atravessava redes no rio, muitas vezes matando milhares destes peixes antes mesmo que pudessem desovar e completar seu ciclo de vida.

Em um dia nas margens do rio é possível ver uma série de animais, pássaros como jacutingas, arirambas, araras, papagaios, mamíferos tais como pacas, capivaras, macacos, quatis, e até mesmo felinos como a poderosa onça parda.

Próxima as margens do rio, em uma área de brejo, é possível registrar as pegadas das esquiva jaguatirica, felino noturno e semi-arborícola ameaçado de extinção no Brasil. Está associada a áreas florestais.

Jaguatirica (Leopardus pardalis)

O gato palheiro (Oncifelis colocolo), felino das regiões de cerrado no Brasil também pode habitar estas áreas, uma vez que o local apresenta os dois tipos de vegetações, a mata atlântica semidecidual e as manchas de cerrado. A espécie é pouco conhecida da população, há pouquíssimos estudos cientificos acerca de seus hábitos e é possivel que também esteja ameaçado de extinção devido a carência de dados.

Um dos maiores primatas da américa, os bugios (Alouatta caraya) vivem em grupos sociais familiares na área, predadores como a onça-parda a jaguatirica e mesmo o gavião-pega-macaco podem predar a espécie. Na foto, uma fêmea me observava a certa altura nas árvores, carregava em suas costas um filhote de alguns meses de idade. Encontran-se em estado vulnerável de extinção no estado de São Paulo.

O veado-catingueiro (Mazama goauzoubira) , segundo a IUCN a espécie é classificada como "vulnerável" de risco de extinção, habitat a área assim como o veado campeiro (Ozotocerus berzoarticus) ambos recentemente (2009) citado no livro vermelho das espécie ameaçadas de extinção do estado de São Paulo. Infelizmente parecem não existir estudos na área que garantiriam melhor a preservação destas populações de cervídeos na região. É possível ver pegadas destas espécies próximo a corpos d'gua limpa, como nascentes, aonde preferencialmente buscam água.

A poderosa onça-parda (Puma concolor) ou ainda leão baio, suçuarana, puma, como é chamada em algumas regiões do país, é um felino que pode chegar a 70 kilos e pouco mais de 170,0cm, pode capturar desde pequenos pássaros e pequenos e grandes mamiferos, abatem suas vítimas por asfixia ou com uma mordida na nuca esmagando as vértebras, como veados, capivaras, antas e até mesmo gado. O fato de as vezes predar cabeças de gado faz com que seja perseguida e abatida em muitas regiões, inclusive nesta. Embora seja raro o ataque desde grande felino a rebanhos domésticos na região, o que ainda pode ser um bom indício, pois representa que a área ainda dispõe de uma grande variedade de alimentos para suportar uma popuação destes belos felinos, que dispõe de grande território para viver. A onça-parda apesar de ter uma grande distribuição nas américas também se encontra na lista das espécies ameaçadas de extinção. A perca de habitat e a caça são suas principais ameaças. Já pude observá-las algumas vezes na área, geralmente nos finais de tarde e durante a noite. Na maior parte do dia dormen escondida na mata, muitas vezes sobre as árvores.


Uma grande variedades de pequenos mamíferos habitam esta floresta, assim como este rato-do-mato, muito ainda se existe para se descobrir acerca desta grande variedade de mamíferos, no estado de São Paulo existem cerca de 22o espécies, sendo 36% da diversidade nacional representada por todas as familias. ( Fonte: Fauna ameaçado de extinção do estado de São Paulo).

O Cachorro-do-mato (Cerdocyon thous) é facilmente avistado nas primeiras horas da manhã, caça pequenos roedores, pássaros e répteis. É possível por vezes avistar casais da espécie caçando ou brincando entre a mata e as manchas de cerrado no campo.

O Lobo-guará (Chrysocyon brachyurus) é uma espécie de canídeo grande e tímido, se alimenta de pequenos roedores, répteis e frutos. Esta espécie magnífica, adaptada as regiões de cerrado, esta ameaçado de extinção no estado e no país. O Cerrado é um dos biomas mais ricos da terra em biodiversidade, e também um dos mais ameaçados.

O Local é um refúgio para as araras canindé (Ara ararauna), que forma casais monogâmicos para a vida toda. Nas margens dos barrancos do rio estas araras buscam cálcio lambendo certas partes, em um local mais afastado da mata, nos campos, aproveitam as sementes dos frutos da palmeira "bacuri" (Platonia insignis) da qual possuem muito gosto, assim como os dos raros buritis (Mauritia sp) que restaram nessa região .

Pontos fixos são ótimos para a observação da vida selvagem, principalmente para aves de rapina e outras aves em geral. É preciso muita paciência e disciplina para ficar horas em meio a natureza, em completo silêncio para poder registrar os comportamentos dos animais, é possível fazer belas imagens e obter informações importantes para a conservação. Descobrir os melhores locais, saber os odores que podem denunciar tipos de mamíferos a insetos, assim como uma infinidade de sons que os animais se comunicam, é uma aprendizado que leva tempo. Costumo dizer que "Avatar" é aqui, mundo dentro de mundos para serem descobertos, sem qualquer interferência humana, é preciso ter respeito, perante a terra, saber que todos somos iguais perante a ela. A natureza é humilde, cruelmente bela e sábia, nesta fotografia havia fixado este ponto para observar aves de rapinas, e pude observar algumas como:

(Falconiformes), falcão quiriquiri (Falco sparverius), falcão-peregrino (Falco peregrinus) este migrante, falcão-de-coleira (Falco femoralis), carcará (Caracara plancus), carrapateiro (Mivalgo chimachima), acauã (Herpetotheres cachinnas), falcão-relógio (Micrastur semitorquatus) este florestal, entre outras espécies como Gaviões (Accipitriformes) como o Gavião bello (Busarellus nigricollis), gavião caboclo (Heterospizia meridionallis), gavião preto (Buteogallus urubitinga), gavião carijó (Rupornis magnirostris), gavião-de-cauda-curta (Buteo brachyurus), gavião-de-rabo-branco (Buteo albicaudadus), gavião peneira (Elanus leucurus), gavião pernilongo (Geranospizia caerulescens), gavião caramujeiro (Rostrhamus sociabilis) e mesmo os ameaçados de extinção como o gavião do banhado (Circus buffoni) e o gavião-pega-macaco (Spizaetus tyrannus), esta última espécie de maior porte relacionada exclusivamente a áreas florestais. Além destas espécie os urubus (Cathartiforme) como o urubu-de-cabeça-preta (Coragyps atratus) e o urubu-de-cabeça-vermelha (Cathartes aura) a maior envergadura de ave no local, cerca de 2m.

(Foto Amanda C.B. Damiani).

Entre a mata e o rio, existem áreas de alagados, onde muitas espécie de pássaros aguáticos como marrecos, mergulhões, garças, e ainda gaviões como o gavião do banhado (Circus buffoni) e o pescador gavião belo (Busarellus nigricollis) e ainda uma infinidade de animais como peixes, anfíbios, insetos e mesmo mamíferos veem atardezinha para beber. Estes poços são também locais procurados pelas onças-parda para emboscarem suas presas, principalmente capivaras.

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